Corpse Party: Book Of Shadows (Visual Novel)

1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 Razoável

Informações

Ano 2011
Estúdio Team Gris Gris
País Japão
Duração Aprox. 10h
Gênero Drama, Sobrenatural, Terror

Atenção! Alguns spoilers sobre “corpse party” serão ditos durante o texto!!

Depois de toda a saga de remakes e remakes dos remakes que o Corpse Party original sofreu, a grande maioria dos fãs concordam que a versão definitiva dessa VN de terror envolvendo colegiais presos em uma escola ginasial mal-assombrada é “Corpse Party BloodCovered...Repeated Fear”, lançado oficialmente para PSP aqui no ocidente pela XSEED Games com o título “Corpse Party” (ainda bem). Um ano depois, a XSEED resolveu lançar também a sua continuação exclusiva para PSP: Corpse Party Book Of Shadows.

Aliás, chamar Book Of Shadows de “continuação” não seria algo exatamente preciso. Mais do que uma sequencia para a história do original, essa nova obra serve mais como um complemento do que qualquer outra coisa. Veja bem: assim como seu predecessor, Book Of Shadows é dividido em capítulos, sete para ser mais exato. Mas cada capítulo conta uma história isolada, cada uma se passando em diferentes momentos em relação ao enredo principal do original. Alguns explicam coisas que aconteceram antes dos eventos de Corpse Party começarem, outros o que estava acontecendo paralelamente à jornada de terror dos protagonistas que controlamos anteriormente, e temos até os capítulos que servem como realidades paralelas. Sim, isso mesmo. Histórias do que poderia ter acontecido caso tal personagem tivesse sobrevivido à sua terrível morte, por exemplo.

Esse tipo de enredo se mostra como sendo muito interessante para os fãs do original, já que descobrimos muito mais sobre aqueles personagens que mal tiveram tempo de se desenvolver antes de morrerem ou que simplesmente foram deixados de escanteio no geral. Apesar de um ou outro capítulo em que interagimos e até controlamos os principais, o mais interessante aqui é a exploração da personalidade e motivações dos personagens secundários. E, no geral, isso é muito bem feito.

Gostaria de ter mais tempo para conhecer e entender o extremamente interessante e deturpado Sakutaro Morishige? Temos um capítulo dedicado especialmente a ele. E a Mayu, que já morreu logo no começo e teve quase nenhuma fala? Ela também toma o papel principal em uma das histórias. Lembra dos estudantes da escola Byakuya que vieram parar em Heavenly Host juntamente ao horripilante Yuuya Kizami? Vai conhece-los bem melhor. No entanto, nem sempre a sua leitura vai ser das melhores.

Primeiramente, a tradução parece ter tido bem menos atenção e adaptação por parte da XSEED Games. Não chega a ser ruim nem nada do tipo, mas de vez em quando os jovens colegiais falam de maneira tão formal que chega a ser estranho, o que distrai um pouco e impede uma imersão maior. Além disso, nenhum dos personagens (fora talvez Morishige e Kizami) chega a ser particularmente original. Ainda mais do que em seu predecessor, Book Of Shadows possui um elenco competente, porém não muito inspirado. Os diferentes narradores e suas interações com outras pessoas mantém a narrativa andando sem grandes atropelos, mas praticamente nenhum deles se destaca ou cria qualquer laço afetivo com o leitor. Ainda mais devido ao fato que sabemos muito bem que a grande maioria vai morrer miseravelmente de qualquer jeito.

Quanto a “jogabilidade”, se é que podemos chamar assim, houveram algumas mudanças significativas. Primeiramente, o estilo de exploração RPG Maker foi jogado fora em prol de um sistema reminiscente aos jogos de aventura “point-and-click”. Isso significa que agora você não tem mais um personagem que anda para lá e pra cá, mas sim um mapa interativo no qual você pode manualmente escolher que corredor/quarto/sala deseja ver, o que é representado por uma ilustração estática. Utilizando-se do analógico do PSP, você pode mover um cursor digital por onde quiser nessa imagem, para assim poder inspecionar qualquer coisa que pareça ser relevante apertando X. É um sistema tão arcaico quanto o anterior (se não mais), mas é definitivamente muito mais eficiente para este tipo de obra no que toca à atmosfera do enredo. Ao invés de gráficos de RPGs da era 32 bits, temos agora imagens de fundo muito mais detalhadas e horripilantes no geral. O lado ruim disso é que o “gameplay” se torna ainda mais monótono e demorado, por incrível que pareça. Às vezes o que fazer em seguida não está lá muito claro, e ficar andando de foto em foto clicando em tudo o que é possível para tentar avançar na história torna a experiência de leitura bem mais longa do que o necessário.

Assim como no original, escolhas interativas ou certas ações suas durante a “jogatina” (como acabar ajudando um espírito que não deve ser ajudado ou entrar em um quarto na horra errada) podem te levar a vários bad ends horríveis e alguns até francamente inusitados. Uma parte significativa da experiência é ver o que pode acontecer de horrível com os personagens nestes “game overs”, mesmo que os finais de verdade já não sejam lá muito felizes na maioria dos casos.

Ah, e vale também comentar um pouco sobreo sistema de “Darkening”. Se você examinar muitos cadáveres, fantasmas ou coisas perturbadoras no geral, um medidor no menu principal se enche aos poucos e um efeito de tela vermelho e onírico vai ficando mais forte. Isso significa que seu personagem está perdendo cada vez mais a sanidade e se rendendo ao desespero, o que obviamente se configura em um bad end.

O visual, fora as já comentadas imagens estáticas de exploração, continua a mesma coisa. Os sprites dos personagens são bonitos e com pouquíssimas expressões (os corpos não costumam nem mudar de posição, apenas o rosto). As CGs de eventos continuam muito bem acabadas e bem pontuais, mas poderiam ter um pouco mais delas. A interface é definitivamente bem mais bonita que a original, mas ainda possui poucas opções de costumização.

Já a trilha sonora continua de muita qualidade (mesmo que por vezes muito “eletrônica”), sendo extremamente atmosférica e de longe o fator que mais contribui para a imersão nesse universo de terror. Pode-se dizer, inclusive, que o uso de efeitos sonoros é usado aqui de maneira ainda melhor que no original. Tenta ler a VN com fones de ouvidos e as luzes apagadas. No mínimo, você vai tomar alguns bons sustos sinceros aqui e ali.

Book Of Shadows também traz alguns pequenos extras muito bem vindos. Se a VN detectar um save completo do Corpse Party original, ele desbloqueia as CGs deste na galeria de CGs para que você possa vê-las de novo sem ter que trocar entre um e outro, caso deseje. Essa mesma função também libera um último capítulo depois de lidos todos os outros, que serve como um prólogo para a continuação da franquia, Corpse Party BloodDrive (já anunciado no Japão para PS Vita). Além disso, existe uma pequena seção onde pode-se ouvir comentários dos dubladores da VN sobre seus personagens e o que acham da história em geral. Cada dublador é desbloquado depois de terminar um capítulo cujo seu personagem tinha uma participação relevante.

“Corpse Party Book Of Shadows” é, essencialmente, um bônus interessante para os leitores do trabalho original. Ler esta novel sem conhecimento prévio da história com certeza torna a experiência muito confusa e picotada. Mesmo a ideia sendo boa, sua execução se mostra inferior se comparada a “Corpse Party”. Os personagens são menos carismáticos que os protagonistas anteriores e o fator gameplay, apesar de mais adequado de um ponto de vista narrativo, retarda todo o processo de leitura. Ninguém quer jogar Corpse Party, mas sim lê-lo. Então, se quiseram mesmo fazer desta VN algo mais próximo de um jogo, deveriam ter desenvolvido um sistema menos meia-boca ou pelo menos impedir de todas as maneiras que essa jogabilidade ficasse no meio do caminho do enredo.

OBS: Corpse Party: Book Of Shadows está disponível em Inglês (XSEED Games)

Lucas Funchal
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