Lobo Solitário (Mangá/HQ)

1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 Excelente

Informações

Títulos Kozure Ōkami
Lonewolf & Cub
Ano 1970
Diretor Kazuo Koike, Goseki Kojima
País Japão
Episódios 28
Gênero Ação, Artes Marciais, Drama
Palavras-chave samurai

Durante o Período Edo da história do Japão, existiam clãs com funções específicas que eram passadas por gerações. Os membros do clã Ogami tornavam-se executores do governo, que era uma função de grande importância, pois tinham a responsabilidade de cortar a cabeça daqueles que fossem condenados a morte, e eram os únicos com permissão para matar um daimyo (senhor Feudal). Existia toda uma cerimônica para estas execuções, em que o condenado realizava o seppuku (cortava o próprio ventre), que representava a recuperação de sua honra, e em seguida tinha sua cabeça decepada. Para executarem esta função os executores eram treinados com uma técnica de espada focada especialmente em fazer um corte rápido e limpo para que, desta forma, o condenado não sofresse durante sua execução.

Nosso protagonista, Itto Ogami, o então executor, é vítima de uma trama arquitetada pelo clã Yagyu, que trabalhava como assassinos secretos do xogum, e fazem com que Itto seja acusado injustamente de traição e condenado ao seppuku, na intensão de tomar seu cargo de executor. Uma acusação de traição era considerado algo tão grave, que não só o traidor era condenado a morte, mas também toda sua família. Por isso, os Yagyu executaram toda a família Ogami, exceto o próprio Itto e seu filho recém-nascido, Daigoro, acreditando que Itto, como um samurai honrado, iria aceitar sua sentença e submeter-se ao seppuku.

Itto decidiu não se matar, e, como os Yagyu não podiam simplesmente assassiná-lo, já que ele ainda carregava o emblema oficial do shogunato, lhe propuseram um duelo, que ele aceitou e lutou com seu filho amarrado nas costas. Venceu, mostrando sua incrível habilidade. Daí em diante, Itto passou a andar pelo Japão com Daigoro, trabalhando como um assassino de aluguel, enquanto se preparava para vingar sua família.

Mesmo sabendo da traição e do que aconteceu com sua família, como podemos simpatizar com um protagonista que vive como um assassino de aluguel? Um dos motivos, é que Itto Ogami, apesar deste tipo de trabalho, mantêve-se um samurai honrado, só aceitando trabalhos, depois de conversar com aqueles que querem contratá-lo e justificarem porque querem matar a possível vítima, e se ele achasse o motivo justo e a vítima realmente merecesse esse destino.

Sem dúvida, uma das coisas mais interessantes da história, é o desenvolvimento do carismático Daigoro, que é recém-nascido no início da história e vai crescendo em meio a muito sangue e violência, vendo seu pai executando suas vítimas, e até participando ou servido de isca em algumas missões. Toda essa experiência vai moldando sua personalidade, que é tido como estranho por todos que olham para ele. E, por observação e imitação, rapidamente adota uma postura amadurecida com relação a espada e o modo de vida do samurai. Um elemento muito chamativo também é o carrinho de bebê que Itto utiliza para levar seu filho. Feito de madeira e bambu, é cheio de surpresas escondidas, e chega a ser essencial em várias missões.

Uma característica muito curiosa do mangá, é que nos primeiros números os capítulos não seguem uma sequência, e parecem sem conexão, fazendo com que muitos leitores achem que não passe de mais uma história de samurai querendo provar que é o melhor do Japão. Só em uma das revistas mais adiante é que a história passa a seguir uma sequência e as coisas começam a se explicar. Daí então o leitor começa a entender várias das histórias dos números interiores.

Durante sua jornada, Itto mostra que não é habilidoso apenas no manejo da espada, mas que também tem grande conhecimento em estratégia militar, política e cultura japonesa. Além das missões, Itto e Daigoro são obrigados a lutar contra oponentes enviados pelo xogum, por intermédio da família Yagyu, e o respeito e admiração que seus oponentes têm por ele deixa claro o tipo de samurai que ele é. Numa dessas, Itto enfrenta Yoshitsugu Asaemon Yamada, protagonista de outra série de mangá dos mesmos autores, chamada “Samurai Executor”, outra obra que também vale a pena ser lida.

A arte da obra é bem diferente do estilo mais tradicional dos mangás, por seguir um traço mais adulto e menos caricato, o que pode afastar muitos fãs de mangás mais jovens. No início, principalmente, dá impressão de que todos os personagens são iguais, mas com o tempo você começa a perceber detalhes muito pequenos que caracterizam cada um e mostram a riqueza do trabalho de Goseki Kojima.

Kozure O-kami, como o mangá é conhecido no Japão, começou a ser publicado em 1970 e durou 6 anos, rendendo 28 números. Não é por acaso que é considerado uma obra prima dos mangás, e ganhou várias adaptações para o cinema, que são conhecidas pela sua fidelidade ao mangá. A obra fez grande sucesso no ocidente, sendo lançado nos EUA como “Lonewolf & Cub” com arte de capa feita por ninguém menos que Frank Miller (The Dark Knight Returns, Batman: Ano Um, Sin City), um grande fã da obra, e ganhou até uma aparição no desenho “Samurai Jack”, produzido pelo Cartoon Network. No Brasil, o mangá foi lançado por completo pela Panini Comics em 2005.

O argumento de Kazuo Koike, aliado aos belíssimos desenhos de Goseki Kojima, prendem sua atenção e te deixam curioso para ver o desenrolar da história, saber qual vai ser a próxima surpresa que Daigoro vai aprontar e que tipo de perigo pai e filho enfrentarão a seguir. Sem dúvida uma das melhores coisas já feitas não só em se falando de mangás, mas em HQs em geral. Um item indispensável na coleção de qualquer fã de quadrinhos!

Jaime Neto
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