Remember11 - The age of infinity - (Visual Novel)

1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 Muito Bom

Informações

Ano 2004
Estúdio KID
País Japão
Episódios 2 rotas
Duração aprox. 30h
Gênero Drama, Sci-Fi

Trailer

Considerado o último capítulo da franquia Infinity de visual novels (o diretor Takumi Nakazawa saiu da Kid após este projeto, e a empresa faliu não muito depois), Remember11 mantém algumas tradições enquanto descarta outras. Para começo de conversa, não existem mais os elementos “dating sim” presentes em Never7 e Ever17. Você não mais se relaciona e conquista diversas personagens femininas, e as rotas são apenas duas, que correspondem às perspectivas de seus dois protagonistas.

Enfim, comecemos pelo enredo: No dia 11 de novembro de 2011, a estudante universitária de ciências humanas Kokoro Fuyukawa entra abordo de um avião com destino a SPHIA, uma espécie de retiro de tratamento para doentes mentais. Seu objetivo é entrevistar Keiko Inubushi, uma colegial que foi responsável por um verdadeiro massacre aos pacientes de um hospital de sua cidade, tendo matado cada um deles com as suas próprias mãos e depois escrito a mensagem “Where is Self?” (onde está o “eu”) no chão com sangue. Foi diagnosticada com transtorno de personalidade dissociativa. Durante a viagem, Kokoro conhece o jovem e divertido Yuni Kusuda.

Enquanto isso, um homem chamado Satoru Yukidoh já se encontra em SPHIA e parece estar realizando os preparativos finais para um grande plano. No alto da torre do relógio, Satoru sente uma estranha presença se aproximando e, ao virar para checar o que é, é subitamente empurrado torre abaixo por esta.

Tudo vai bem no avião até que uma tempestade de neve ataca, causando uma violenta turbulência que leva à sua fatídica queda em uma montanha chamada Monte Akakura. Kokoro, Yuni e mais dois indivíduos (Seiji Yomogi e Lin Mayuzumi) por pouco sobrevivem ao desastre e conseguem achar uma pequena cabana para se abrigar em meio ao frio mortal.

Satoru é resgatado por uma das doutoras que trabalha em SPHIA (Kali Utsumi) apenas para acordar assustado e perceber que é vítima de um caso de amnésia, não conseguindo lembrar-se de eventos recentes e o porquê de estar em SPHIA para começo de conversa. Devido a enorme tempestade acontecendo lá fora, Satoru não tem escolha se não se abrigar no centro de tratamento, estando preso juntamente a Kali, Keiko e um garotinho que também foi resgatado em meio a tempestade: Yuni Kusuda.

Como se tudo isso já não fosse o suficiente, Kokoro e Satoru logo descobrem que estão sendo afetados por um fenômeno extremamente peculiar: em intervalos regulares, estão trocando de corpo. Kokoro se “transporta” para o corpo de Satoru em SPHIA, e este se transporta para o dela na cabana.

Por que algo completamente absurdo como isso está acontecendo? Como acontece? Por que existem dois Yunis? Quem está tentando matar Satoru em SPHIA? Essas são algumas das várias perguntas que esta história simplesmente fascinante lhe proporciona durante R11.

Como já mencionei lá em cima, R11 possui apenas duas rotas, a perspectiva de Kokoro e a de Satoru. No entanto, apenas a de Kokoro está aberta desde o começo, sendo que a segunda só abre após completa a primeira. A ideia é mais ou menos a seguinte: rota Kokoro introduz os mistérios, enquanto Satoru os revela. Essencialmente, é a mesma história contada de perspectivas diferentes, e esse artifício é muito bem utilizado para construir o clima geral de tensão e mistério da VN.

Apesar de ainda existirem, os momentos mais calmos e descontraídos entre os personagens são extremamente escassos. R11, se comparado a seus antecessores, é uma história muito mais sóbria e adulta. Enquanto Kokoro e os outros sobreviventes lidam com a situação crítica de estarem presos em uma pequena cabana com suprimentos extremamente limitados e a sanidade chegando ao limite, Satoru corre risco constante de vida em um retiro completamente fechado do mundo exterior. É essa dinâmica de extrema tensão na situação dos dois personagens que torna a premissa de “troca de mentes/corpos” de R11 tão interessante e instigante. Na rota de Kokoro, se ela não está enfrentando o inverno e fome brutais, está tentando se salvar de um assassino misterioso enquanto no corpo de Satoru. Já na rota deste, vice-versa. O roteiro é MUITO bem estruturado e não existe nenhum erro de continuidade sequer. Tudo o que é mostrado na primeira rota se encaixa cronologicamente na segunda e a troca de perspectivas cria uma experiência diferente para cada uma.

Pode-se dizer que o papel das escolhas em R11 é sobreviver. Caso faça uma escolha ou uma sequência de escolhas erradas, você é levado a um bad end trágico em que os protagonistas ou mais alguns personagens morrem. Na prática, isso serve mais como um “game over” do que qualquer outra coisa, e eu particularmente gosto muito deste estilo. Faz com que você pense um pouco mais na hora de escolher alguma opção, pois, ao invés de uma rota alternativa, você estará levando seu personagem à morte e precisará recomeçar de seu último save para avançar de fato na história.

Os personagens, talvez com a exceção de Lin, são extremamente bem trabalhados. A história possui um caráter de pesquisa tão grande que as referências e subjetividades simplesmente não param, e os personagens não são exceção. Como fica claro na animação de abertura, cada um deles correspondem a um dos chamados “arquétipos” da psicologia de Carl Jung, ou seja, suas personalidades são completamente construídas e baseadas nestas complexas ideias que com certeza atiçarão a sua curiosidade. Se for como eu, vai já jogar no google cada termo para entender do que se trata. Praticamente TUDO na história tem uma razão de ser, desde os nomes dos personagens até datas e referências numéricas.

Vale salientar que, ainda mais que Ever17, R11 possui MUITA exposição científica de todas as maneiras. Foi o primeiro e único título da série (descontando os remakes para PSP) que implantou um sistema de “Tips” (dicas), que é um menu separado com vários tópicos que aparecem durante a história, só que tratados mais a fundo. Por exemplo, supondo que na história apareça o termo “Emaranhamento Quântico”: este termo estará grifado em azul e será imediatamente desbloqueado como um tópico na seção de “Tips” que explica mais detalhadamente o que isso significa e pode ser lido a qualquer momento. Isso é um ótimo recurso que ajuda a história a não se tornar demasiado expositiva em sua narrativa e permite constante checagem daquela informação se o leitor achar necessário.

Mas nem tudo é um mar de rosas em qualquer obra de arte, então vamos a uma das maiores falhas de R11: o seu final. De longe o maior criticismo da novel, o final é simplesmente terrível. Quando a história está se fechando, com praticamente todas as revelações já ditas, ela termina em um cliffhanger (um final que cria expectativa para o “próximo episódio”) de doer na alma, pois além de introduzir um novo mistério, não explica nem a este ou ao detalhe mais importante: POR QUE TUDO ISSO ESTÁ ACONTECENDO DE FATO!? De quem foi o plano!? Por que existe um plano e qual o seu objetivo!? Não me entenda mal, as respostas para estas perguntas existem durante a história, mas nunca são respondidas de maneira clara, sendo divididas em infinitas pequenas dicas que só podem ser vistas em certos bad ends. Para começar a entender o que de fato está acontecendo por baixo dos panos, você tem de ler um bad end que só pode ser acessado perto do fim da segunda rota. Além disso, a novel te incentiva a completar todos os bad ends possíveis, pois isto vai abrindo as Tips finais que lhe dão várias pistas e informações importantes sobre os personagens e enredo em geral que deveriam estar incluídas na história principal para começo de conversa.

Quanto ao visual, essa é com certeza a VN mais bonita da série Infinity. O design de personagens está notoriamente mais maduro e realista, além de os sprites destes serem desenhados e coloridos de maneira muito agradável. Possuem até pequenos efeitos como bocas se mexendo durante as falas, o ar quente saindo delas quando estão em meio a neve, olhos piscando e coisas do tipo. O único porém é que continuam com um leque de expressões e posições muito limitado. Os CG’s de eventos são muito bem trabalhados, variados e detalhados em sua maioria, no entanto a diferença entre os personagens nestas ilustrações e nos sprites é simplesmente gritante. Ambas são bonitas, no entanto essa diferença passa uma sensação de inconsistência.

A interface tem suas qualidades boas e ruins. Primeiramente, o menu de pop-up que aparece com um clique do botão direito é funcional o suficiente, e com ele temos pequenas descrições sobre que cena da história estamos, qual rota, quantas horas de “jogo” já estão acumuladas e, principalmente, qual é a música de fundo que está tocando no momento. Esta última informação é um toque muito bem vindo e deveria ser praticamente um padrão para toda e qualquer visual novel, a meu ver. Fora isso, no entanto, a interface é bem desinteressante. A cor cinza chapada predomina tudo e as opções oferecidas não passam das mais básicas, como volume de músicas e vozes, velocidade do texto, player das músicas de fundo, etc. A galeria de CG’s possui alguns extras interessantes que são desbloqueados com o seu progresso no jogo, como ilustrações promocionais e arte conceitual dos personagens.

A trilha sonora está praticamente no mesmo nível intermediário que a de E17, com a obra prima de piano da vez sendo “All or None”, uma bela e calma melodia que é um orgasmo para os ouvidos. Não sei se chega ao nível de “Karma”, mas é uma ótima e climática música por mérito próprio. Por mais que eu ache que Remember11 -the age of infinity- cumpra muitos méritos com excelência, não posso lhe dar uma nota maior que Ever17, principalmente devido a enorme falha que é o seu final e a complexidade quase injusta que é entender um ponto essencial do enredo. É uma ótima VN, a meu ver muito superior aos seus antecessores, no entanto não consegue chegar ao status de 5 estrelas. Mesmo assim, vale muito a pena uma conferida nesta complicada e extremamente intrigante história.

OBS: Ao traduzir Never7, o grupo Lemnisca translations aproveitou para também traduzir a timeline da série Infinity, que era um extra destravável caso o seu PSP identificasse três saves completos dos remakes de N7, E17 e R11. Eles disponibilizaram esta como um arquivo html e é quase indispensável para a confirmação de teorias e entendimento da história de R11. Ou seja, caso se sinta confuso ao final da leitura, a timeline oferece algumas informações bombásticas que vão finalmente lhe dar aquela resolução tão esperada ;).

OBS 2: Remember 11 - The age of infinity - pode ser encontrado em Inglês (TL Wiki) e Chinês (T-Time).

Lucas Funchal
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