Rewrite (Visual Novel)

1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 Bom

Informações

Ano 2010
Estúdio Key
País Japão
Episódios 8 rotas
Duração Aprox. 60h
Gênero Comédia, Drama, Fantasia, Romance, Sci-Fi, Shounen, Slice of Life, Suspense

Trailer

Deixe-me iniciar essa resenha comentando sobre como é difícil resenhar “Rewrite”. É uma obra tão única e diferente em tantos aspectos que a quantidade de coisas a se considerar na hora de fazer uma crítica chega a dar dor de cabeça. Por isso mesmo, já fica avisado: essa review vai ser bem grande.

A bagunça já começa no seu desenvolvimento: apesar de ser uma visual novel da já renomada Key (Air, Kanon, Clannad), o escritor principal de praticamente todas as obras de sucesso da produtora, Jun Maeda, não toma esta função aqui, ficando apenas com o cargo de controle geral de qualidade. Quem toma as rédeas nesse quesito é Tanaka Romeo, escritor mais conhecido no Japão pela visual novel “Cross Channel” (a qual ainda pretendo ler). Mas não é só ele a contribuir com sua criatividade. Ryukishi07, criador da franquia “When They Cry” (Umineko no Naku Koro Ni, Higurashi No Naku Koro Ni), também está na equipe como escritor de uma das rotas, além de Yuuto Tonokawa, um escritor novato da Key cujo o único trabalho anterior foram duas rotas da VN “Little Busters!”.

Então, temos três escritores em uma única visual novel, sendo dois deles muito reconhecidos no meio e cada um possui um estilo distinto. Qual seria, portanto, o resultado dessa parceria sob o logotipo da Key? Eu lhe respondo: é uma obra satisfatoriamente diferente e criativa, no entanto não é nem de longe perfeita.

Mas vamos aos poucos, a começar pela sinopse: “Rewrite” se passa em Kazamatsuri, uma cidade japonesa coberta por plantas e árvores devido ao enorme investimento em reflorestamento na área. É lá que vive Kotarou Tennouji, um jovem muito animado e brincalhão, porém de poucos amigos. Ele já está no segundo ano do ensino médio, e chegou a conclusão de que está disperdiçando sua juventude. Desesperado para fazer novos amigos e partilhar experiências para se lembrar no futuro, Kotarou cria o clube de ocultismo, onde ele e uma trupe de meninas brincam de investigar rumores e boatos que envolvem o sobrenatural, coisa que não falta na cidade.

Até aí tudo bem, o esperado de qualquer trabalho da Key. No entanto, durante todo esse tempo, Kotarou vem escondendo um misterioso poder que ele tem desde pequeno. Coisas estranhas começam a acontecer e, sem nem perceber, Kotarou é jogado de cabeça em um misterioso conflito entre duas organizações globais que pode definir não apenas o destino da humanidade, mas do planeta.

Sim, você leu o parágrafo acima corretamente. Uma obra da Key em que a história, além de lidar com poderes fantásticos, toma escalas globais e épicas. “Rewrite” é muito diferente de qualquer coisa que a Key já tenho feito. Se isso for para o bem ou para o mal, depende do quanto você está disposto a se desprender do que está acostumado.

Se você ler a seção desta página que lista tags de gênero, vai ver que “Rewrite” possui muitos. Uma rota pode ser extremamente tensa e depressiva, enquanto a outra focada em lutas com várias características de um shounen. Uma heroína pode ter uma história muito mais romântica, enquanto outra possui descrições de desmembramento e comentários profundos sobre nossa existência e como nos relacionamos com tudo a nossa volta.

Se alguém me perguntar sobre o que exatamente é Rewrite, eu teria de rebater com “depende, qual rota você quer saber?”. Cada rota é praticamente uma grande história com começo, meio e fim, e a maneira como uma se difere da outra chega a ser tão gritante que não seria estranho se estas fossem visual novels independentes uma da outra. Simplesmente não dá para resenhar Rewrite sem ao menos comentar brevemente sobre cada rota. Portanto, aqui vai (sem spoilers):

Rota Comum: É onde começa a história, com as escolhas que definem qual das outras rotas será acessada. Normalmente não faria sentido comentar sobre essa parte do enredo específicamente, mas em Rewrite essa seção é simplesmente ENORME, inclusive mais do que deveria. Tem um claro foco na comédia e nos elementos slice-of-life do dia a dia de Kotarou. O enredo principal se move a passos de tartaruga, mas a interação entre os personagens e o humor geral da história conseguem te cativar o suficiente, apesar de ser rapidamente cansativo e monótono. Vale comentar que existem vários elementos interativos na forma do sistema “Mappie”, que seria uma espécie de GPS point-and-click. É possível achar itens, amigos estranhos/engraçados e pequenas quests secundárias. Tem variedade o suficiente pra ser diferente toda a vez que o leitor precisa passar por ela de novo.

Kotori Kanbe – Amiga de infância de Kotarou, cuja a rota é recomendadíssima que se leia primeiro. Consiste basicamente de uma introdução a todo o vasto universo de “Rewrite”. Grande parte desse cenário se desenvolve de maneira lenta e gradual, o que resulta em partes francamente entediantes. No entanto, possui muitos momentos emocionais (especialmente lá para o final) genuinamente verdadeiros que te socam no estômago. Relativamente depressivo. Escrita por Romeo.

Chihaya Ohtori – Essa rota tem um foco claro na ação. Infinitos elementos shounen muito bem utilizados acompanham essa história regada de lutas épicas e possuidora de um clima bem mais leve e divertido. Também tem seus momentos mais sombrios, mas no geral é empolgante e frenética. O final, no entanto, é muito “perfeito e feliz”, se comparado ao resto da VN. Além disso, o romance entre Kotarou e Chihaya, apesar de bonitinho, é muito fraco e deixado de lado. Escrita por Tonokawa.

Shizuri Nakatsu – Também escrita por Tonokawa, essa rota é um meio-termo entre a ação e felicidade de Chihaya e o clima opressivo e triste de Kotori. As cenas de ação são legais e o grande drama de Shizuru é de apertar o coração, mas o que se destaca aqui é claramente a relação romântica entre ela e Kotarou. O final é simplesmente lindo, sendo o mais próximo de uma história convencional da Key.

Lucia Konohana – Uma ótima rota, sem tirar nem por. Ela tem de tudo. Romance extremamente bem trabalhado, cenas de ação absurdamente empolgantes, uma heroina principal carismática e muito bem construída. É de se esperar, já que esse cenário foi escrito por Ryukishi07. No entanto, essa foi sua única contribuição para o todo, e isso se mostra claro pelo fato de que essa rota é muito separada de todo o resto do contexto. O que acontece aqui simplesmente não se relaciona com o resto da história. Ótima rota por si só, mas deslocada se analisada no âmbito geral.

Akane Senri – Juntamente a Kotori, umas das rotas mais importantes para a história no geral, já que foi escrita por Romeo também. Não consigo ser mais claro quando digo que essa rota deve ser deixada para o final. É extremamente depressiva, ao ponto de que a situação se torna cada vez mais alarmente e fica desconfortável de ler. Além disso, as cenas de ação são muito anti-climáticas, com um estilo de narrativa muito “seco e lógico”. Akane é, no entanto, uma das heroínas mais bem construídas, de longe.

Você pensa que acabou? É claro que não. Depois de lidas as 5 rotas acima, desbloqueia-se a rota Moon.

Moon – Uma espécie de interlúdio para a última rota. De longe uma das partes mais interessantes e impressionantes de “Rewrite”, Moon é uma rota ambígua e metalinguística, introduzindo conceitos metafísicos e amarrando as pontas soltas de tal maneira que você consegue sentir o nó em seu cérebro se apertando. Possui um segmento de ação muito épico e satisfatório. Ironicamente, é justamente nessa rota que todas as inconsistências e buracos no enredo ficam mais evidentes.

Terra – Rota final, com um foco maior em Kotarou e seu passado. Apesar de ótimos momentos, também tem outros muito arrastados e francamente forçados. A história toma rumos inusitados, nem sempre no bom sentido, além de o final ser discutivelmente muito aberto. Alguns momentos anti-climáticos, similares aos de Akane, também estão presentes. Assim como Moon, foi escrita por Romeo.

Já deu pra ver que a VN é enorme, não é? Essa é uma de suas grandes falhas. É desnecessariamente longa e, após lidas umas 3 ou 4 rotas, é fácil sofrer de uma espécie de “overdose” da história. Só a rota Comum é um segmento slice-of-life simplesmente muito grande, e você tem de passar por ele todo antes de chegar na parte realmente legal. Isso faz com que alguns momentos da leitura se tornem mais uma tarefa para chegar ao final do que algo consistentemente interessante, o que sem dúvida machuca muito a experiência.

“Rewrite” e sua diversidade de temas e gêneros é uma faca de dois gumes. Por um lado, o fato de que cada rota oferece uma experiência diferente contribui para uma sempre presente sensação de renovação e curiosidade para o que virá. Comparar as rotas, a maneira como certos assuntos foram tratados, e tentar adivinhar o que a próxima oferecerá é parte da diversão. Por outro, a “crise de identidade” da história e seus múltiplos escritores criam muitas inconsistências, tanto no tom geral do enredo quanto a citações, acontecimentos e detalhes que simplesmente se contradizem. Obviamente, Kotarou age de maneira diferente e chega a conclusões variadas dependendo das circunstâncias de uma rota a outra, no entanto nem sempre esse processo é fácil de engolir. As vezes Kotarou é quase um super herói, outras nunca consegue passar de um novato indefeso. Por vezes suas diferentes atitudes fazem sentido, por outras cria-se uma sensação de que ele está apenas seguindo o que o script manda. Por mais que esse conceito de realidades paralelas com diferentes resultados seja o maior clichê do mundo das visual novels, o protagonista precisa pelo menos agir de maneira consistente, com suas transformações sendo mais lógicas e verossímeis. E nem sempre isso acontece.

Outro problema de consistência é na relevância dos acontecimentos de certas rotas para com a história geral (Moon e Terra). Existem personagens exclusivos para algumas rotas que não são nem mencionados nas outras, e isso pode se tornar um incômodo. Gil e Pani, por exemplo, são personagens secundários carismáticos que possuem um papel muito claro e marcante nas rotas de Chihaya e Shizuru, mas nunca mais são vistos fora destas.

Tudo isso pode fazer parecer com que Rewrite não seja uma boa história, mas não é verdade. Apesar destes problemas impossíveis de se ignorar, Rewrite possui muitas ideias interessantes e originais, e com certeza muitos momentos marcantes. Os personagens, até mesmo os mais secundários, costumam ter personalidades a princípio estereotipadas para mais tarde se mostrarem complexos e cativantes. Os temas tratados, muitos deles de caráter socio-ambiental, são realmente interessantes e passam longe de que se esperaria de uma campanha publicitária a favor da mãe natureza. Os riscos e consequências aqui são enormes e, mais do que uma análise de como os seres humanos desgastam o planeta, existe um comentário filosófico sobre como nos relacionamos com as pessoas a nossa volta e com o mundo em que vivemos.

O visual de Rewrite é muito bonito, talvez seja uma das VNs mais bem produzidas nesse quesito que já li, no entanto peca em muitos pontos chave. Existe uma reciclagem de backgrounds muito evidente, além da incrivelmente pequena quantidade de CGs de eventos. Muitos personagens importantíssimos como Inoue, Suzaki, Gen, Brenda, Tsukuno e muitos outros simplesmente não tem sprites, e não existe absolutamente nenhuma lógica concreta quanto a quem recebe dublagem ou não. Um personagem que poderia ser considerado o vilão principal de toda a história mostra a cara em apenas uma CG, enquanto Yoshino (que serve apenas de alívio cômico) tem um sprite e dublagem, por exemplo. Tudo isso, infelizmente, contribui para constantes quebras de imersão na história. No entanto, existem vários efeitos de tela muito bem trabalhados que ajudam um pouco nestes momentos.

A interface é linda, e possui uma gama agradavelmente grande de opções. Mixagem de volume, quais personagens vão ser dublados ou não, tipo de fonte do texto, velocidade do texto, velocidade da voz, que botão você quer apertar para que o menu apareça, opções de skip, cor do fundo da tela e muitas, mas MUITAS outras coisas. Nunca vi uma VN tão customizável quanto essa, isso sem falar em todos os elementos interativos que aproxima “Rewrite” a um jogo eletrônico. Durante a rota comum, você pode encontrar muitos amigos e completar quests que ficam gravadas em um menu chamado “Memory”. Para aqueles que completarem 100% do conteúdo opcional, serão recompensandos com o hilário “Oppai Ending”.

Rewrite acerta em cheio na trilha sonora. Não chega a ser tão eclética quanto a de Umineko No Naku Koro Ni, por exemplo, mas possui muita variedade e as músicas sempre tocam no momento certo. Melodias de piano, beats eletrônicos e um pouco de rock é o que você vai encontrar aqui, além dos ÓTIMOS temas de abertura “Philosophyz” (Runa Mizutani) e “Rewrite” (Psychic Lover). Alguns dos encerramentos também ficarão na sua cabeça por muito tempo, especialmente “Love Letter” (Yanagi Nagi). No geral, a trilha sonora é muito memorável.

Mas enfim, vale a pena ler Rewrite? No geral, sim, mas isso vai depender muito da sua paciência, tempo livre e capacidade de relevar problemas que, apesar de não estragarem todo o pacote, são certamente irritantes. No final das contas, o seu aproveitamento dessa visual novel será algo realmente relativo. São tantos temas e gêneros diferentes permutando a todo o momento que é simplesmente impossível a experiência ser a mesma para todo mundo. É só procurar por outros reviews na internet para notar que as opiniões são extremamente divergentes, com rotas favoritas ou detestadas sempre mudando de resenhista para resenhista. Não existe um consenso geral de qualquer tipo para essa VN. Por mais que existam muitos ótimos momentos, logo atrás deles estão cenas muito arrastadas, inconsistências, personagens sem sprites e outros problemas que, infelizmente, machucam a experiência como um todo.

No entanto, “Rewrite” certamente merece reconhecimento por ter tentado fazer algo diferente, mesmo que com graus de sucesso variáveis. Existe algo para todo mundo aqui, mas não dá para recomendar essa obra para todos. Isso pode parecer paradoxal, mas é a verdade. Comece a ler sabendo que não é nem de longe uma história convencional da Key, e que na verdade cada rota poderia facilmente merecer sua própria VN. Existe algo para se tirar de cada uma de suas histórias, mas a obra total é tão complexa e repleta de grandes e pequenos contratempos que é completamente impossível nomear um público específico para ela. Apenas siga sua curiosidade, e veja se gosta. Garanto que será no mínimo curioso.

OBS: Rewrite está disponível em Inglês (Amaterasu Translations), Chinês  (CK-GAL), Alemão (Yume Creations) e Português (Sigma Subs, no entanto a tradução ainda não está finalizada).

Lucas Funchal
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