Sora no Woto (TV)

1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 Bom

Informações

Títulos Sound of the Sky
Ano 2010
Estúdio A-1 Picture
Diretor Mamoru Kanbe
País Japão
Episódios 12
Duração 24 min
Gênero Comédia, Drama, Guerra

Dirigido por Mamoru Kanbe – diretor em “Elfen Lied”, “Denpa Teki na Kanojo” e “I´´s Pure” -, “Sora no Woto” foi o anime de estreia do bloco “Anime no Chikara”, projeto feito em parceria da TV Tokyo com os estúdios Aniplex e A-1 Pictures. Tinha como objetivo – “tinha” porque o projeto não vingou devido à baixa audiência – criar animações originais e com elas descobrir e desenvolver novos animadores. Antes de ser interrompido, outras duas séries foram exibidas no bloco; “Seikimatsu Occult Gakuin” e “Senko no Night Raid”. Em um mundo devastado pela guerra, onde a raça humana retrocedeu no tempo e máquinas se tornaram relíquias de eras passadas, há uma garotinha, de nome Kanata Sorami, que pela aparência inocente poderia muito bem estar indo para a escola estudar e jogar conversa fora com as amigas. Ao invés disso, ela vai rumo a uma isolada e calma cidade chamada Seize, do fictício país Helvetia. Nesse lugar fará parte de um pequeníssimo pelotão formado só por mulheres fixado numa fortaleza próxima à cidade, batizada de “Fortaleza Guardiã do Tempo”. Jovem, alegre, essa garota apenas se alistou por conta de sua vontade em aprender a tocar trompete – pois em nenhum outro local poderiam ensiná-la isso -, instrumento do qual tomou admiração após, quando criança, ver uma soldado tocá-lo. “Sora no Woto”, basicamente, é um anime que se destaca principalmente pela “roupagem” inusitada. O tema “guerra” está presente, contudo praticamente não há cenas de ação ou de grande movimento; o país de Kanata e das demais personagens do pelotão está num período de paz, e elas ainda se encontram em uma área que dificilmente receberia um ataque inimigo. Logo, para essas garotas resta somente ficar ali, esperando por algo, enquanto vão vivendo juntas. É um mero “slice-of-life” em um ambiente diferente. Mas é justamente por isso que atrai mais. Aliás, à primeira vista esta série poderá relembrar bastante “K-On!”, popular anime “slice-of-life”, por conta dos traços parecidíssimos, de algumas personagens também parecidíssimas e do tema musical no meio. De fato, se Yui, Ritsu, Mion e Tsumugi fossem obrigadas a irem a uma guerra, creio que o resultado disso seria semelhante ao visto aqui. E o que isso tem a ver com a resenha? Nada. Tal comparação serve puramente para simples curiosidade. Se fizeram isso de propósito para chamar a atenção? Ué, muito provável que sim. Continuando, “Sora no Woto” pode desanimar em particular aqueles que dele esperam algo mais agitado, porque de resto mostra-se um anime tranquilo e relativamente divertido, e na maior parte do tempo melancólico. Kanata, constantemente disposta a ver o lado bom das coisas - e tipicamente insegura sobre si própria -, não demora a ficar íntima de suas quatro companheiras, que vão desde aquela personagem do tipo madura sorridente que age como uma mãe e que sempre dá conselhos, até à de poucas palavras inteligente que fica uma graça quando tenta fazer uma piada. São personagens genéricos, muito usados, que nunca se desligam de seus estereótipos, mas tomam um leve “ar” de frescor ao vermos em volta um cenário que não seja uma escola. Narrando o dia a dia dessas garotas, onde o máximo que fazem de seu serviço são tarefas cotidianas e monótonas – mas sempre com alguns desejáveis ou indesejáveis imprevistos -, tem quem possa estranhar e achar forçado presenciar tais meninas tão bonitinhas numa guerra ou, melhor dizendo, trabalhando no exército, já que guerra de verdade não há. Contudo, se pensarmos que há animes em que crianças pilotam mechas para salvar o mundo a mando do pai e outros onde garotinhas são usadas como armas assassinas, bem, notamos que estamos apenas sendo muito críticos e exigentes. Há comédia, sim. Todavia ela é frágil, pálida, que mais faz a pessoa esboçar um sorriso do que rir com vontade - e isso com a ajuda das personagens, que rapidamente se tornam aturáveis e razoavelmente simpáticas a quem assiste o anime. Suas raras aparições servem unicamente para se sair um pouco do clima melancólico que permeia boa parte da série por conta do cenário e da trilha sonora. Enquanto isso, o drama desfruta de um papel maior; mesmo com alguns moradores da cidade dizendo que tais garotas servem somente “para decoração”, quase todas podem ainda ser menores de idade, porém, a guerra ficou fortemente marcada em suas curtas vidas. Usando um ritmo demasiado lento - possível de causar tédio até naqueles que estejam gostando do anime -, tanto faz se são histórias do passado das protagonistas ou dramas atuais delas ou de personagens secundários; o sentimentalismo raramente aparece em excesso, com exclusão de uma ou outra cena e, em maior parte, dos episódios finais. E, por causa do lugar onde a trama se passa, a tolerância quantos a esses momentos se torna maior – um grupo de garotinhas se preocupando com a prova do dia seguinte é uma coisa; um grupo de garotinhas se preocupando com uma pessoa que corre risco de vida é outra deveras diferente. Só que “Sora no Woto” foca tanto nas relações, tanto na convivência desse pelotão minúsculo – e ainda não conseguindo aproveitar corretamente esse espaço, sendo incapaz de evolui-las além de suas formas básicas -, que acaba desenvolvendo mal o mundo que criou, que por si só é clichê e repleto de “buracos”. Fatos de conflitos passados são com frequência citados, porém explicados de modo breve e incompleto; servem unicamente para atiçar a curiosidade. Curiosidade essa que aumenta se prestar atenção aos detalhes do presente, como o caso de o nome do país, Helvetia, ser outro nome dado à Suiça; ou então que a escrita usada é a francesa; ou que os pratos que as protagonistas comem são de diversos cantos da Europa; ou que o inimigo desse país fala um idioma semelhante ao alemão, e etc. Enfim, uma grande mistura que mal é justificada. Não que sejam obrigados a mostrar uma história detalhada da geografia e política desse mundo recém-criado; mas que ao menos fossem mais cuidadosos e esmerados em certas questões. No fim, parece uma trama pós-apocalíptica que um adolescente comum criaria em poucos minutos, e da qual não se deve esperar grande coisa. Exibindo um “character design” bem moe e singelo, de expressões medianas, o que chama a atenção quanto à animação é o visual de fundo; Seize – inspirada na cidade de Cuenca, da Espanha - se mostra uma formosa cidade bucólica de ar europeu e de desenhos detalhados e com bons contornos, em um estilo que se aproxima de algo mais artístico, encantador. Não há como negar que, ao menos nesse quesito, a parceria entre TV Tokyo, Aniplex e A1-Pictures – que é subsidiária da Aniplex – foi competente e perfeita, já que em “Seikimatsu Occult Gakuin”, terceiro anime desse projeto e que inclusive tem uma resenha feita por mim no site, também se presencia uma animação ímpar. A arte é primorosa até nas cenas da música de abertura, com animações estáticas das cinco garotas, tendo fundos abundantemente coloridos e enfeitados. E seria uma falha imensurável caso essa parte, a sonora, fosse de baixo nível num anime que tem isso como um de seus temas. A música de abertura cantada pela banda Kalafina – que atuou nas canções de encerramento de “Mahou Shoujo Madoka Magica” e “Kara no Kyoukai” – é o resumo do que se ouvirá no anime em seu todo: uma trilha sonora ao mesmo tempo vigorosa e serena, e que muito se baseia em músicas celtas. Em algumas ocasiões elas surgem em um tom mais soturno, triste, usadas corretamente nos momentos dramáticos; entretanto, predomina em “Sora no Woto” uma sonoridade aconchegante, que se harmoniza com o ambiente e as personagens. Difícil não pensar se estamos realmente acompanhando uma história que ocorre num mundo devastado pelos homens e suas armas. Exclui-se dos elogios a música de encerramento, alegre e pop, de qualidade medíocre. O estado bruto em alguns quesitos como a construção de personagens e enredo pode explicar um pouco a baixa receptividade que “Sora no Woto” teve. Mas, talvez o principal motivo seja que se vê nele exatamente aquilo que não se esperaria ver, que é a comédia sendo suplantada pelo drama de cinco garotas, onde a mais velha tem dezoito anos. Ignorando o visual enganador das protagonistas, que insinua algo totalmente diferente, “Sora” possui a capacidade de entreter de modo razoável apesar de suas limitações. Abordou uma visão nova em um subgênero que mesmo recente já anda desgastado, e isso é um feito a ser parabenizado num mercado que tem medo imenso de inovar. Enfim. Na questão qualidade, parece que o “Anime no Chikara” estreou relativamente bem com essa animação. Mas depois...

Erick Dias
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