Steins;Gate (Visual Novel)

1.0 2.0 3.0 4.0 5.0 Bom

Informações

Ano 2009
Estúdio 5pb., Nitroplus
País Japão
Duração Aprox. 40h
Gênero Drama, Sci-Fi
Palavras-chave Steins;Gate

Hoje em dia, quase todo o fã de animes conhece Steins;Gate devido a sua versão animada, lançada em 2011. O anime foi um sucesso quase absoluto de crítica e audiência, sendo taxado por muitos como um dos melhores de todos os tempos. Tendo isso em vista, como a Visual Novel original se compara?

Lançado em 2008 como o segundo título da série “Sci-Fi ADV” pela produtora 5pb. (Chaos;Head, Corpse Party) em parceria com Nitroplus (Saya No Uta, Kikokugai), Steins;Gate conta a história de Rintaro Okabe, um estudante universitário chuunibyou (basicamente um homem crescido com muitas manias nerds) que se auto-entitula como “Houyin Kyouma”, o cientista do mal. Sempre inventando histórias absurdas, criando termos em inglês sem nenhum sentido e falando de maneira exageradamente teatral, Okabe mora em seu “laboratório” (que na verdade é só um apartamento logo em cima de uma loja de TVs antigas) em Akihabara, onde se junta com Itaru “Daru” Hashida, um hacker otaku, e Mayuri Shiina, sua amiga de infância e cosplayer.

Neste laboratório, Okabe conduz experiências estúpidas e cria invenções mirabolantes e excêntricas, a mais recente sendo um microondas capaz de ser conectado a um celular, que passa a funcionar como um controle remoto.

A coisa se complica quando, por puro acidente e com ajuda da mente brilhante de Kurisu Makise, descobrem que o microondas em questão é capaz de mandar mensagens de celular para o passado. Começam então a testar com a possibilidade de mudar o presente mandando mensagens para o passado e, como já era de se esperar, tudo dá muito errado e o efeito borboleta corre solto. Agora contra a parede, Okabe deve finalmente parar de encarar tudo como uma grande brincadeira e resolver a enorme bagunça que começou, se quiser salvar as pessoas próximas dele de uma série de tragédias.

Se comparado a série Infinity (Never7, Ever17 e Remember11), pode-se dizer que Steins;Gate é uma obra de ficção científica um pouco mais light. Os conceitos científicos, apesar de estudados, não são tão bem trabalhados a ponto de produzir uma grande verossimilhança e certos detalhes (como, por exemplo, o verdadeiro modelo do universo) devem ser aceitos pelo leitor sem maiores explicações e pronto. Não que isso seja algo particularmente ruim, pois uma história de ficção científica menos criteriosa ainda pode ser muito boa dependendo de como os conceitos são usados, e nesse quesito Steins;Gate tem algumas boas ideias. A maneira como viagem no tempo é tratada aqui é muito interessante e fica um pouco mais complexa ao longo da história, gerando resultados e “estratégias” por parte dos personagens que são no mínimo bem sacados. A maneira como mensagens enviadas para o passado são capazes de alterar o presente, por exemplo, é muito bem pensada e a explicação para como um microondas modificado é capaz de interferir no tempo e espaço é, apesar de absurda, muito criativa.

No entanto, onde S;G consegue se mostra como uma boa ficção científica, peca no que mais importa: a história em si. Para ser mais exato, no seu rítimo. Como é de praxe do mercado de Visual Novels, temos um protagonista homem, seu único amigo, e o restante do elenco principal dominado por mulheres, ou “heroínas”, como são chamadas. No caso de Steins;Gate, esse tipo de modelo não poderia se mostrar mais desnecessário.

Temos 6 heroínas: Kurisu Makise, Mayuri Shiina, Faris, Suzuha Amane, Luka Urushibara e Moeka Kiryuu. A história, ao invés de optar pelo modelo tradicional de rotas diferentes, é dividida em capítulos sequenciais, cada qual focado em uma das meninas a partir do capítulo 6, totalizando 10. Isso significa que a história te obriga a passar pelas históriais pessoais de cada uma das personagens, o que não é necessariamente ruim, não fosse o fato de que duas das meninas são quase que completamente inúteis para a história principal. E o fato da narrativa já demorar bastante para engrenar também não ajuda.

O começo da VN é extremamente lento e quase nada acontece durante os primeiros três capítulos. Fora algumas exposições científicas interessantes aqui e ali, o começo se foca em introduzir cada uma das heróinas a vida de Okabe e nas relações entre os personagens. A comédia não é lá muito engraçada e os diálogos também não são de prender a atenção. As coisas finalmente engrenam no capítulo 4 e eu gostaria de dizer que se mantém constantemente interessantes até o final...Mas infelizmente esse não é o caso.

Lembra de mim falando sobre as heroínas dois parágrafos acima? Pois bem, o maior problema da história de Steins;Gate está bem aí, pra ser mais específico nos capítulos 6 e 7, referentes a Faris e Luka. São duas personagens completamente irrelevantes na trama, e mesmo assim a história para de andar apenas para se focar nessas duas por dois capítulos inteiros. Como se não bastasse, esses capítulos são extensos e com arcos narrativos desinteressantes: no caso de Faris, a história se foca num torneio de um jogo de cartas de fictício. No de Luka, o principal gancho é um encontro entre ela e Okabe. Chega a ser ridículo, dada a urgência da situação, Okabe perder tanto tempo com coisas tão banais, e a razão de ele ter que fazer isso para começo de conversa também não é das melhores. Felizmente, após esses dois capítulos, as coisas voltam a engrenar e a narrativa se torna coesa novamente.

Fora Okabe, todos os personagens seguem arquétipos bem manjados por qualquer um que já tenha assistido a um número considerável de animes, e não se desenvolvem muito mais que isso durante todo o resto da história, praticamente. Mesmo quando seus passados e angústias são revelados, nunca se tornam mais originais ou interessantes. São apenas ok.

Apesar de a história ser linear na maior parte do tempo, cada heroína possui um final próprio (menos Moeka, por algum motivo) e isso me leva a falar sobre uma das características mais curiosas de Steins;Gate, que é a interação com o seu celular. De maneira criativa, a sua interação com a VN não é mais escolhendo diferentes opções do que falar ou fazer, mas sim abrindo o celular e respondendo mensagens ou atendendo ligações a qualquer momento. Você pode escolher ignora-las ou respondê-las na hora, e isso no geral destrava alguns bonus interessantes, como achievements, novos ringtones e wallpapers, além de alguns diálogos extras com os personagens. Ao final de alguns capítulos, se você escolher não usar o celular e mandar uma mensagem, você é levado a um final alternativo referente a heroína que está em foco no momento. Esses finais, excetuando-se o de Faris (de longe a personagens mais chata de todo o elenco), são interessantes e valem a pena ser lidos. Alguns são um pouco mais felizes, outros mais trágicos, e ajudam um pouco a desenvolver os personagens rasos. Mas nem tudo são flores neste sistema.

Para responder a uma mensagem, você deve clicar em alguma palavra que está sublinhada no texto e isso definirá sua resposta. O problema é que não existe nenhuma maneira de adivinhar ou raciocinar que tipo de resposta você vai dar baseado somente naquela palavra, tornando tudo muito aleatório. Isso é particularmente problemático quando você está tentando alcançar o “True Ending”, que requer que você responda a uma sucessão de e-mails da maneira certa durante todo o decorrer da VN. É quase impossível você acertar tudo na raça sem a ajuda de um detonado, o que pode ser muito frustrante quando você percebe que tem voltar três capítulos atrás apenas para responder a coisa certa e ver o final definitivo.

A arte de Steins;Gate, no entanto, é muito bonita. Apesar de o design de personagens não ser nada de grande destaque, a maneira como são coloridos é estranhamente agradável aos olhos, especialmente os cabelos, que parecem ter uma textura cheia de pequenos ruídos. As CGs de evento são boas (apesar de algumas possuírem traços e/ou proporções estranhas), alguns efeitos de tela e vídeos de transição dão mais dinamismo à narrativa e a interface dos menus é competente, mas nada de mais. Vale lembrar que Steins;Gate também possui um sistema de TIPS similar a Remember11 e I/O, o que é sempre muito bem vindo.

A trilha sonora é passável. Não chega a ser ruim, mas fora o tema principal “Gate of Steiner” (e suas variações) não tem nenhuma outra música que seja particularmente memorável. Os temas com vocais (como“Skyclad Observer” de Itou Kanako) são muito bons, no entanto.

No final das contas, devo admitir que não consigo entender por que Steins;Gate fez tanto sucesso e se tornou um ícone tão grande tanto como Visual Novel ou anime. A história é interessante, mas possui problemas imensos de rítimo, além de os personagens serem rasos e alguns até contribuírem para fillers dentro da narrativa. Apesar de algumas boas ideias no campo da ficção científica, S;G se mostra como sendo uma história mediana e não muito original. Nunca vi o anime para saber por que tanta gente gostou, mas usando a Visual Novel como referência, só posso dizer que é isso mesmo: “uma história mediana com algumas boas ideias”.

OBS: Steins;Gate está disponível em Inglês (JAST USA), Russo (Translab), Chinês (5pb.), Koreano (5pb.), Italiano (S;G Team) e Espanhol (Gate of Steiner).

Lucas Funchal
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