Umineko no Naku Koro Ni (Quando as Gaivotas Choram) deve ser uma das séries de Visual Novels de maior repercussão no mundo inteiro. A fama da VN anterior do grupo 07th Expansion, Higurashi no Naku Koro Ni (que teve adaptações animadas que você pode ler as resenhas aqui mesmo no Animebook), claramente ajudou esta obra a entrar no radar mais cedo. Referências entre as duas histórias são feitas a torto e a direito, tendo até alguns personagens que são claras alusões a outros e assim por diante.

Mas não se engane. Umineko no Naku Koro Ni vai muito mais além de seu predecessor. A história é infinitamente mais inteligente, intrigante, criativa e épica. Mas enfim, falarei sobre isso mais adiante no texto. Vamos primeiro a sinopse, que utilizarei a mesma que fiz para a adaptação animada que esta VN recebeu:

O ano é 1986, no mês de outubro. Em uma ilha chamada Rokken, existe a mansão da famosa e rica família Ushiromiya. O chefe da família, Kinzo Ushiromiya, se encontra muito velho e em seu leito de morte, segundo as previsões de seu médico particular. Esse fato, naturalmente, causa certo estardalhaço entre seus quatro filhos (Krauss, Eva, Rudolf e Rosa), que desejam negociar como a herança será dividida na próxima reunião anual familiar.

Assim, todos os parentes se reúnem na data marcada para a reunião com duração de dois dias na ilha Rokken, onde não apenas se encontra toda a família Ushiromiya, mas também cinco empregados de Kinzo e seu médico particular, totalizando 18 pessoas. Para fechar o encontro com chave de ouro, a previsão do tempo não está boa. Um forte furacão se aproxima dos mares japoneses, tornando a ilha completamente isolada do resto do mundo, sem nenhum meio de comunicação ou transporte.

Além disso, a ilha possui uma lenda peculiar, espalhada entre os parentes e empregados pelo próprio chefe da família, sobre a Bruxa Dourada chamada Beatrice. Essa bruxa vive no fundo da floresta e foi ela quem ofereceu uma enorme quantidade de ouro para Kinzo, na época em que a família Ushiromiya passava por uma crise financeira. A reunião familiar logo se transforma em um verdadeiro pesadelo quando a família recebe uma misteriosa carta na mesa de jantar, assinada pela própria Beatrice, e assassinatos brutais e misteriosos começam a ocorrer. Assassinatos tão peculiares que chegam a dar a impressão que não teriam como serem realizados por um ser humano normal, mas por algo mais "sobrenatural", como uma bruxa... Porém, Battler Ushiromiya (filho de Rudolf) não acredita em magia e muito menos em bruxas assassinas, e fará de tudo para provar que tudo pode ser explicado com truques humanos, mesmo que as coisas mais bizarras e a própria Beatrice apareçam bem na sua frente.

Umineko possui uma história tão rica em complexidades, personagens e referências que foi dividida em um total de 8 episódios, por sua vez divididos em dois arcos com quatro episódios cada um. Esta review será uma crítica da obra como um todo (ou seja, Umineko no Naku Koro Ni e Umineko no Naku Koro Ni Chiru). Já vou avisando que, para discutir um pouco a história será necessário que eu dê um spoiler logo de cara. Não é nada realmente importante, já que é justamente o ponto central do enredo e não dá para falar sobre este sem mencionar tal detalhe, mas caso deseje entrar na experiência sem saber absolutamente nada para maior surpresa, recomendo que não leia este review no que toca à história.

Enfim, continuemos: O primeiro episódio é o único que possui uma sensação genuína de mistério e terror com os pés no chão. É uma ótima abertura para a história, sem dúvida alguma, mas é apenas a superfície do que esta aborda durante suas mais de 60 horas de leitura. A partir do segundo episódio, descobrimos que (de alguma maneira) Beatrice realmente aparece... E Battler a nega. Beatrice então decide desafiá-lo para um jogo cuja premissa pode parecer idiota, mas é simplesmente genial: Uma guerra de argumentos a favor e contra a existência de magia e o sobrenatural, onde o caso de assassinatos e mistério de Rokken sempre se repete de maneiras diferentes. Battler deve provar que tudo o que ocorre na ilha pode ser feito com truques racionais, enquanto Beatrice deve mostrar que magia é algo real e ela é uma bruxa homicida de verdade.

 A maneira como isto se dá é ainda mais impressionante e metalinguística: o texto na tela muda de cor para ajudar no direcionamento do jogo. Vermelho representa uma verdade absoluta que não pode ser questionada, por exemplo. Assim começa o verdadeiro foco da VN: "Lutas" que na verdade são discussões entre o sobrenatural e o ceticismo, entre o simbolismo e truques de narrativas de detetives, questionamentos entre o que é real ou não, a necessidade de se considerar ambos os lados e as infinitas camadas que a história constrói em torno de si mesma.

Já deu para perceber que Umineko possui um enredo muito complexo, e de fato pode ser deveras confuso, mas dizer que é difícil de entender seria um erro grave. Ao longo dos primeiros quatro episódios, Umineko expande e explica seu universo aos poucos, mas de maneira clara e extremamente didática, ensinando ao leitor como lidar com esta história para enfim descobrir a verdade. "Nunca pare de pensar" é um dos quotes mais famosos de Battler e serve para te encorajar a criar suas próprias teorias sobre tudo o que está acontecendo.

Os outros quatro episódios dão dicas mais evidentes sobre o enredo e servem como uma espécie de "confirmação de teorias" criadas nos anteriores. Isso pode parecer muito estranho, mas é construído de maneira tão incrível que a narrativa e fluidez do enredo no geral não é minimamente afetada por toda esta quebra da quarta parede. A história está sempre andando em sua continuidade, no drama e felicidade de seus personagens, no clímax de cada episódio.

Claro que isso não funcionaria se os personagens que compõem Umineko não fossem no mínimo interessantes... E eles são. Muito. Com apenas uma ou duas exceções, todos os personagens são simplesmente fantásticos, curiosos e singulares em sua própria maneira. O elenco aqui já é bem grande, mas torna-se gigantesco com o passar dos episódios e, por incrível que pareça, a grande maioria é bem explorada e utilizada durante a narrativa. Somos apresentados a personagens novos até o penúltimo episódio da história, e suas personalidades e funções no enredo são sempre tão marcantes que é impossível não desenvolver afeto por eles. Caras e bocas que parecem ser rasas e estereotipadas a princípio são cuidadosamente desconstruídos ao longo do enredo, somos apresentados a seus passados, dramas, alegrias, ambições, pontos fortes e fraquezas. Até mesmo os personagens que servem mais como mecanismos simbólicos ambulantes exalam um carisma penetrante e memorável, tornando-se assim tão humanos quanto o resto.

Toda essa extrema competência no enredo é ainda mais amplificada pela trilha sonora. Cada episódio chega a ter mais de 20 faixas e músicas novas aparecem a cada um que se passa. No final das contas temos uma seleção variada e extremamente chamativa. Listar aqui todas as que eu pessoalmente adoro estenderia ainda mais esta resenha, então vou me contentar dizendo apenas que as músicas são muito bem produzidas e de estilos variados, tendo desde beats eletrônicos frenéticos a lindas melodias de piano e orquestras emocionantes. Tudo é extremamente climático e, acredite, será um dos elementos mais presentes durante toda a sua experiência com a VN.

Umineko peca, no entanto, na parte técnica. Por ser uma obra doujinshi, ou seja, feita por um grupo amador, a qualidade visual é bem fraca. Os personagens são desenhados pelo próprio mentor da história (conhecido apenas por seu apelido na internet, Ryukishi07), e é evidente que o cara não manja muito de proporcionalidade de desenho ou tratamento de cores. Não existem CG's especiais de eventos e os sprites dos personagens tem um traço francamente feio, apesar de aceitável e ter detalhes de suas roupas até que notoriamente detalhados. Os cenários são todos fotos que sofreram tratamento no photoshop para não ficarem muito foto-realísticas e também para serem melhor customizadas. Os efeitos de tela são muito simples, no entanto bem utilizados para a imersão na obra. Apesar de tudo isso a narrativa é tão rica e cativante que tais detalhes logo são relevados e você até que se acostuma sem grandes problemas.

A interface é extremamente simples, com menus de cor marrom chapado e não muito chamativos, além de design bem minimalista, com poucas opções de customização que só podem ser acessadas através de comandos no teclado (estes podem ser vistos no "read me" do patch de tradução). Uma função interessante é o menu que oferece uma esquemática dos personagens, breves resumos sobre eles e suas relações com os demais. A novel também possui um sistema de tips, mas nem de longe tão útil e informativo quanto em Remember11, por exemplo.

Quanto a falhas na história em si, só posso citar duas. Primeiramente: o primeiro terço do episódio 1 é bem monótono, já que muito tempo é gasto introduzindo o enredo e personagens (sem isso, no entanto, tenho certeza de que a história não seria tão impactante e envolvente). Algumas outras passagens aqui e ali também possuem um teor maçante e expositivo, mas muito raramente. No geral, é uma narrativa extremamente viciante e que te prende facilmente, utilizando de uma linguagem nada rebuscada e com uma fluidez agradável (pelo menos a versão traduzida para o inglês, que é a minha referência).

Segundo: O excesso de referências ao universo otaku e ao fanservice. Alguns personagens aqui e ali são tão exagerados (seja no conceito, seja nos decotes e peitos) que ocorre uma quebra notável na imersão do enredo. Além disso, algumas piadinhas desse gênero ocorrem justamente em momentos sérios da narrativa. Ao invés de causar o efeito de "quebra de gelo", esse contraste apenas enfraquece a experiência como um todo.

Já deve ter dado para perceber que eu adoro Umineko no Naku Koro Ni. Não escondo isso: esta visual novel é, em minha opinião, completamente fantástica e genial. Com um enredo complexo, inteligente, envolvente e extremamente metalinguístico, muitas das reviravoltas e mecânicas utilizadas na história são simplesmente impressionantes de tão criativas e bem sacadas. Tudo isso sem sacrificar ótimos personagens e a genuína emoção que sentimos ao ler suas jornadas em uma narrativa fluida e agradável. Momentos de plenitude completa, de comédia, de romance, de quebrar o coração, de causar empolgação a ponto de levantar os pelos do corpo, tudo está aqui em doses cavalares e muito bem vindas. É uma história para todos? Talvez não, mas eu francamente acho que TODO MUNDO, fãs de cultura pop japonesa ou não, deveriam ao menos dar uma chance a essa obra. A quantidade de temas e curiosidades abordadas aqui é uma ótima reserva de cultura e, francamente, a história passa mensagens tão tocantes e universais que podem lhe acrescentar muito como ser humano no geral. Se não isso, pelo menos é uma fonte quase inesgotável de combustível para o pensamento. Umineko é sem dúvida uma excelente história, que merece todo o reconhecimento que ganhou no Japão, sua legião internacional de fãs na internet e muito mais. Caso queira começar a ler Visual Novels, recomendo esta fortemente. Caso queira simplesmente uma boa história, também é recomendadíssimo. Muito dificilmente você irá se arrepender.

OBS 1: Umineko é uma visual novel linear, portanto nada de rotas alternativas. O último episódio, no entanto, possui algumas poucas escolhas interativas que permitem a leitura de cenas extras, e uma última escolha simples que decide entre o final ruim e o final verdadeiro.

OBS 2: Assim como Higurashi, Umineko ganhou uma versão muito melhorada para Playstation 3, no entanto foi algo que obviamente ficou só no Japão. Existe, porém, um projeto na internet que criou um patch para a versão PC com os gráficos e dublagem da versão ps3, caso alguém esteja interessado.

OBS 3: A título de curiosidade, o grupo de tradução em inglês (Witch Hunt) possui o aval oficial do 07th Expansion para traduzir suas novels sem finalidade comercial. Estão atualmente traduzindo a nova novel de Ryukishi07, Rose Guns Days.

OBS 4: Umineko no Naku Koro Ni está disponível em Inglês (Witch Hunt), Chinês (MMR Rokkenjima Investigation Squad), Turco (Furude Project), Espanhol (07th Inquisition), Russo (Honyaku-subs), Italiano (Ars Magica), Coreano (Team Basilisk) e Francês (Visual Test)

Lucas Funchal
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